MACHISTA

– O meu pai é diferente. Carinhoso, divide as tarefas, incapaz de levantar a voz…

– Você fala assim por que é filha. Não tem nada disso, o brasileiro é machista, são todos iguais.

A filha não quis contestar a mãe na frente das amigas, mas estava contrariada. O assunto não saía da sua cabeça. Era muita injustiça: a verdade é que o pai era mais que carinhoso, era um fofo, era um doce. Machista? Blasfêmia! Saindo dali, quis tirar a história a limpo:

– Mamãe, quanto absurdo. Isso não é jeito de falar do papai…

– Absurdo é você falar bem do meu homem na frente das outras. Ficou doida? Que não se repita!

CINCO ANOS

Julho de dois mil e onze. Deu boa tarde ao vira-lata, assoviou para o sol, sorriu para um estranho. Fingiu que o ônibus era uma carruagem. Achou ter visto um arco-íris, mas era imaginação. Ao descer do lotação, despediu-se do motorista. Teve vontade de falar com todo mundo que encontrava. Já perto de casa, passou por uma obra.

– Boa tarde, morena. Viu passarinho verde?

– Melhor: fui demitida.

—–

Julho de dois mil e dezesseis. Chutou a lixeira na rua, cuspiu no chão, fez careta para o mendigo. Discutiu com o cobrador do ônibus. O dia estava lindo, mas ela via tudo cinza. Desceu xingando o motorista pela freada brusca. Tinha vontade de socar o mundo inteiro. Chegando em casa, bateu a porta com força. A irmã ficou assustada.

– O que foi, mana? Morreu alguém?

– Pior: fui demitida.

ATLETA DO BRASIL

Sem apoio, sem patrocínio, sem ajuda de ninguém, ele treinou. A escola não tinha estrutura, nem o bairro, nem sequer a cidade. Era o pai, inventivo, quem improvisava os equipamentos. Para que fosse ao campeonato estadual, toda a família contribuiu. Voltou com o título de campeão, mas ainda sem apoio, sem patrocínio, sem ajuda de ninguém. Treinou com mais afinco. Pouco a pouco os resultados vieram. Quando despontou como um dos melhores do Brasil, eles surgiram: políticos, presidentes de federações, um povo que ele nunca tinha visto, todos querendo uma foto ao lado da jovem revelação. Acostumados ao afago, encontraram um atleta refratário ao beija-mão. Onde estava aquela gente quando ele tanto precisou? Fazia questão de mostrar estranheza com o assédio dos engravatados. Pior: os repórteres já estavam reparando. Foi chamado num canto.

– Ô garoto, está se achando né? Acorda pra vida, ninguém aqui precisa de você pra nada. A escolha é sua: quer virar estrela do esporte ou voltar lá pros cafundós com uma mão na frente e outra atrás? Vamos baixar essa bola!

Tirou as fotos com o coração pesado e o cenho franzido. Dá um sorriso, pediram. Sem sucesso. No dia seguinte as manchetes traziam o chiste: “este sim é um sério candidato à medalha”.

NA PLANTA

– Vocês prometeram trinta por cento ao ano!

Chegou gritando, batendo a porta com violência, bem diferente da sua entrada ali dois anos antes. Na ocasião havia um coquetel com espumante e canapés. Foi recebido por uma moça bonita, cabelos negros arrumados em coque. Ela explicou tudo: empreendimento alto padrão, piscina e varanda gourmet. Com a valorização garantida, comprou dois, um para morar e outro para investir. Todo mundo estava ganhando dinheiro assim. Mas as coisas não saíram como imaginava. Por mais que pagasse, o saldo devedor não parecia diminuir. Por mais que anunciasse, não conseguia vender. As parcelas apertavam o seu pescoço e o pior: agora a construtora vendia apartamentos iguais trinta por cento abaixo do preço.

Um corretor veio falar com ele: alto e forte, parecia preparado para aquela situação. Vendo o tamanho do homem, teve que se acalmar. Já não havia espumante, mas aceitou um copo d’água.

– Não é justo. Vocês prometeram valorização!

– Mercado é risco, senhor. Dois anos atrás esta sala estava cheia, funcionários, clientes. Agora… É a crise.

– Mas vocês prometeram trinta por cento!

– Está em contrato?

GUANABARA

– Bilhões foram gastos para limpar isso aqui… Olha: um colchão! Ali tem um chinelo e uma carcaça de TV. Outro pneu, o terceiro só hoje. Um urso de pelúcia, tá vendo? Que meigo. Um saco plástico, uma calça, uma seringa… Uma seringa?

– Agora chega, vamos velejar em outro lugar. Não há medalha que justifique isso.  

HOMEM BOMBA NA BAHIA?

Gritos, pânico, confusão. Correu sem perguntar o por quê. Só do lado de fora ficou sabendo: havia um homem-bomba no prédio. Homem-Bomba? Em Salvador? Ele, que era de outro estado, não conseguia pensar em nada mais contrário ao espírito do lugar. Ladrão tinha de penca, mas terrorista?

Formou-se uma pequena multidão. O espírito empreendedor daquele povo é inegável: onde há um ajuntamento, logo brota um isopor e um churrasquinho. Alguém ligou o som do carro e pronto, era Salvador de novo. O forasteiro ficou por ali, abriu uma gelada para aproveitar o domingo. Em pouco tempo fez amizades. Os diálogos eram impagáveis:

– Rapaz, um terrorista? Salvador tá chique, vuh?

– Esse moleque merece uma surra de gato morto até o bicho miar.

– Alô Mundiça? Tô aqui no homem-bomba, tá bombando, vem pra cá…

Logo a polícia chegou. Após horas de negociação, o rapaz se rendeu. Foi solto no mesmo dia: não havia bomba nenhuma, apenas balas de gengibre atadas ao seu corpo. Uma vendedora de amendoim saiu com a pérola:

– Bem que eu tava achando estranho. Baiano imitando gringo? Nunca! Baiano inventa moda. Homem-Bala é novidade, homem-bala é coisa nossa!

SUS

Náusea, dor de cabeça, corpo dolorido. Ligou pro patrão pra avisar que não iria. “Traga um atestado”, ele disse. No posto de saúde a cena era de guerra. Velhos, crianças, gente chorando. Uma fila colossal. Um rapaz chamou atenção: deitado no chão, perna deformada por um acidente de moto. Sentiu vergonha por estar ali. Em meio a tanta dor, o seu caso parecia banal. Decidiu ir trabalhar.

– Ué, já melhorou?

– Pois é, mais um milagre do SUS.

ALUNA NOTA SETE

– Não tem jeito: a menina vai ter que sair da escola.

Era o pai com a calculadora e a mãe com um lenço. Desde que a esposa foi demitida, ficou difícil para ele manter sozinho as contas em dia. A mensalidade, das mais baratas da região, já não cabia no orçamento. Ele argumentava que a escola pública do bairro não era o fim do mundo, o filho de fulano estudava lá, aquele outro garoto também. Mas ela, que sempre sonhou ver a filha doutora, não se conformava. A criança era esforçada, mas não a melhor da turma. Nem tampouco a pior: era uma aluna nota sete. Ainda assim a mãe havia tecido altos sonhos. Agora sentia como se aquele passo tirasse a menina de um caminho dourado, fechando as melhores portas do seu futuro. Vencido pela frieza dos números, o pai foi fatal:

– O que não tem remédio, remediado está. Ela vai pra escola pública, pelo menos até as coisas melhorarem. Fazer o quê? É a vida…

No primeiro dia a mãe estava aflita, mas a visão da filha na saída da aula a tranquilizou. Estava eufórica, tinha feito amizades, gostou da professora, amou a escola. Foi um alívio e tanto. Os dias passavam e a impressão só se confirmava: a escola pública, pelo menos aquela, não era tão ruim. A merenda era boa e o parque bem conservado. Já estava se achando uma tonta por ter sofrido tanto, até que a filha trouxe o boletim.

– Mãe, olha: tirei só nove e dez!

INFLAÇÃO      

Estavam de mudança. O trabalho era grande: separar, encaixotar, jogar fora. Impressionante como as coisas se acumulam. Fotos, objetos, registros de outros tempos, vidas dentro da vida. Achou um panfleto de supermercado. Ofertas de dez anos atrás: leite condensado um real, pacote de biscoitos sessenta centavos, pão francês cinco centavos… E a cebola então! Com cinquenta reais ela compraria o panfleto inteiro.

– Filha, vem ver isso!

– O que houve? Achou algo de valor?

– Ao contrário, parece que perdi.