COXINHA OU MORTADELA?

Era repórter fotográfico. Naquele domingo, treze de março de dois mil e dezesseis, parecia não haver nada mais interessante para registrar na cidade de São Paulo do que as manifestações contra o governo que aconteciam na Avenida Paulista. Uns falavam em quinhentos mil, outros em um milhão. Não importa: era gente pra caramba. Sobretudo chamou a sua atenção um rapaz, negro e jovem, vestindo uma camisa amarela. Isopor debaixo do braço, ele bradava a plenos pulmões: “impeachment!” Gritava e vendia cerveja. Aquela imagem parecia desmontar a tese da divisão do país entre elite branca “coxinha” e proletariado “mortadela”. Era a cena que o repórter queria: tirou muitas fotos.

Na sexta-feira seguinte, dezoito de março de dois mil e dezesseis, parecia não haver nada mais interessante para registrar na cidade de São Paulo do que as manifestações a favor do governo que aconteciam na Avenida Paulista. Uns falavam em oitenta mil, outros em quinhentos mil. Não importa: era gente pra caramba. Outra vez viu o rapaz negro e jovem, desta vez vestindo uma camisa vermelha. Isopor debaixo do braço, ele bradava a plenos pulmões: “não vai ter golpe!” Gritava e vendia cerveja. O repórter teve que tirar a história a limpo.

– Não era você que estava aqui domingo com uma camisa amarela? O que aconteceu, mudou de lado?

– Mudei não senhor. Eu não entendo nada disso, pra mim político é tudo igual. O meu lado é o meu trabalho. Deixa eles brigarem: nunca vendi tanto na vida. Vai uma gelada?         

É SÓ O BRASIL

– Primeiro, a chacina. Cinquenta e sete mil mortos só pra começar. Depois o caso da grávida, mataram a coitada pra roubar o bebê. Achou macabro? Então ouve essa: um pai falido esfaqueia a esposa, mata os filhos a marretadas e depois comete suicídio. Aí veio…

– Que coisa horrível! Era filme de guerra ou terror?

– Filme? Que nada, é só o noticiário. É só o Brasil…

PALAVRÕES

Filho único, costumava brincar sozinho. Colher brigava com garfo, desodorante virava lança-chamas, o lápis combatia os crimes da borracha vilã. Mas naquele dia foi diferente: a brincadeira estava recheada de palavrões. “Menino, onde você ouviu isso?”

– Na TV do papai…

Dentes de fora, encurralou o marido. “Que baixaria é essa que você está assistindo na frente da criança?”

– Mas querida, é só a TV Senado…

A RUA ERRADA

Esse mato corta pra cacete! Corre, tenho que correr, eles continuam. Não fiz nada, só entrei na rua errada, como ia saber? Como está escuro. Não vou parar, não quero morrer. À direita, esquerda, esquerda, os caras estão perto, tenho que correr. Esse mato corta! Corre mais, corre mais, força. Eles não vão me pegar, ai mamãezinha, Jesus Cristo, Nossa Senhora! Eu só entrei na rua errada, não posso morrer por isso. Minha mãe dizia não corre pra não cair, mas eu corria, sempre corria. Subo ou não subo? Já subi, corre, corre! Na subida é difícil, será que eles têm pulmão? Estão perto, ainda tão perto meu Deus, corre mais! Esse mato cortou a minha cara, tá sangrando. Ai! Que topada, essa pedra, que dor, tá muito escuro. Corre! Meu dedão, será que quebrou? Não posso parar, não posso. Foi um engano, eu não conhecia o bairro, entrei e… Minha mãe dizia, não corre pra não cair, mas eu sempre corria. Que dor, tenho que correr, corre mais, corre mais! Estão mais perto, acho que estou lento, tem que forçar, vamos, corre pela sua vida! Perto demais, estão perto demais, estou lento… Um tiro! Muda de direção, direita, direita, esquerda, ai mamãezinha, Jesus Cristo, Nossa Senhora! Não vão me acertar, vou descer, desci, corre, corre. Outro tiro! Vamos, corre pela sua vida, corre mais! Esquerda, vou despistar. Minha perna! Acertou a minha perna. Agora eu caí, minha mãe dizia não corre pra não cair. Eles me pegaram, ai mamãezinha, Jesus Cristo, Nossa…

TIROS

Chegou à cidade grande com o itinerário certinho num papel. Pegou o coletivo em direção à casa da tia. A certa altura, ouviu tiros. A reação foi imediata: jogou-se no chão. Gargalhada geral.

– Levanta, moço. A coisa está longe…

A CONTA

O marido andava com um humor terrível. Empresário acostumado a crescer, abrir lojas, expandir, nos últimos tempos teve que se deparar com uma realidade diferente: quatro das nove unidades do seu negócio tinham fechado. Outras estavam na fila. Sempre foi orgulhoso dos empregos que gerava, das famílias que gravitavam à sua volta. Agora sentia cada demissão como um espinho, uma mancha na sua trajetória. Outrora sorridente, tornou-se irascível. Tudo o irritava: o café fraco, a chuva fina, o frio e o calor. Era outra pessoa.

Ninguém sofria mais do que a esposa. Casou-se com um homem bem-humorado e agora tinha a seu lado uma eterna carranca. Sem saber como ajudar, decidiu deixá-lo em paz: mal conversavam nos últimos meses. Qual não foi a sua surpresa quando, no domingo, assistindo à festa de encerramento das olimpíadas, flagrou uma lágrima fugidia percorrendo as rugas do marido. “Então ele não está tão endurecido”, pensou. “Ainda é capaz de se emocionar com o Brasil, com a nossa gente, com essa festa bonita. Nem tudo está perdido”. Quis puxar assunto, mas decidiu respeitar o momento. Mais tarde, deitada na cama, viu os olhos dele vidrados no teto. A curiosidade feminina foi maior que a discrição:

– Sem sono, meu bem? Está pensando em quê?

– Na conta, meu amor. Estou pensando na conta…

MENINAS

– Homens não têm brio, nem gana, nem amor à camisa, mulheres são superiores, vamos meninas, o ouro é nosso, Marta é melhor que Neymar e… O que foi isso?

– Foi isso: Marta perdeu. O vôlei feminino também, na quadra e na praia. São todas grandes atletas, guerreiras, deram o melhor de si, mas não foi o suficiente. E mais: não foram derrotadas por homens. Em frente a elas estavam outras mulheres, vindas de outros horizontes, também guerreiras, também dispostas a dar o melhor de si. Mais talentosas? Mais preparadas? Talvez. Ou quem sabe apenas num dia melhor, embaladas por algum sopro divino ou vontade interior que as permitiu superar, além das nossas meninas, a força e o grito de um país inteiro, homens e mulheres, todos na torcida, todos brasileiros. Esporte é isso: suor, coração e uma pitada de sorte. Não tem nada a ver com guerra dos sexos.

UM PERIGO

O primo foi buscá-lo na rodoviária. Eram como irmãos: cresceram juntos no interior, levando uma vidinha calma, aquela infância de jogar gude e subir em árvore. Vinham felizes, rindo e lembrando os velhos tempos. Mas a descontração durou pouco. Logo à frente houve um atropelamento: um senhor de idade atravessou onde não devia e foi arremessado ao ar. A reação óbvia foi pedir ao primo para parar o carro, mas não foi atendido.

– Nem pensar, aqui não paro nem por um pneu furado. A região é um perigo.

Estava decepcionado. Comparar uma tragédia com um pneu furado? Será que a vida na cidade endurecia o coração a esse ponto? O outro parecia impávido: disse que ligaria para a emergência assim que pudesse. Passaram bem ao lado do corpo estendido no asfalto. O velho estava bastante machucado, coitado. Ninguém parecia dar a mínima, mas para ele era uma cena forte demais, urbana demais. Ficou olhando pelo retrovisor enquanto outros carros também passavam sem prestar socorro. Até que uma moto parou, condutor e carona desceram. Finalmente, pensou. Há esperança, existe gente boa e disposta a ajudar!

Os dois homens revistaram o moribundo e levaram carteira, celular e uma pasta que ele levava consigo. Depois foram embora. Nada disse ao primo. Minutos depois, tentando desatar o nó da garganta, quis retomar a conversa, falar da infância ou algo assim. Mas era tarde: a leveza estava perdida.

LONGE DE BRASÍLIA

– Por duas semanas, o mundo inteiro está com os olhos voltados para o Rio. Você não fica feliz?

– Você sabia que o Tribunal de Contas da União vai montar um salão de beleza em suas dependências?

– Não sabia…

– Este é o ponto. Por duas semanas, o Brasil inteiro está com os olhos longe de Brasília.