PABLO

– Rapaz, eu tava vendo aquele seriado sobre o Pablo Escobar, o cara era louco! Comprava juízes, matava polícia, até metralhou um candidato às vésperas da eleição!

– Seriado? Isso aí está parecendo o Jornal Nacional…

MINHA AMIGA

O patrão, dono de uma construtora, era arrogante, irascível, um animal. Implicou desde o início com a nova copeira: o café estava sempre fraco demais, frio demais, doce demais. “É água, pó e açúcar, não pode ser tão difícil!” Era o seu estilo de liderança: queria cem por cento o tempo todo e nada menos. A tensão estava sempre no ar.

Já frente a um cliente importante, era diferente. Afável, coloquial e mais: ria. Foi isso o que mais espantou à copeira. Ia entrando para servir o café e aquela risada, de tão inesperada, quase a fez derrubar a bandeja. O patrão parecia outro.

– O café está ótimo, muito obrigado.

Está ótimo? Muito obrigado? Um espanto! Olhou de soslaio para a outra pessoa na sala e reconheceu: era um deputado, candidato a prefeito naquele ano. Qual seria o assunto desses dois? Boa coisa não havia de ser.

Sempre ouviu sobre a relação duvidosa entre políticos e empresários, mas ver o patrão, um bruto, convertido em cordeiro manso na presença do outro foi demais. Imaginou mil negociatas, sentiu ódio daqueles dois. Desde então apoiou a prefeita, candidata à reeleição. Convenceu a todos: família, amigos, vizinhos. Comemorava cada ponto nas pesquisas como se fosse um gol. No trabalho, servia o café cantando mentalmente o jingle: “a prefeita é minha amiga, mulher boa de briga…”

Enfim o deputado perdeu a eleição: a copeira chegou ao trabalho radiante. Esperava ver a cara de derrota do patrão, mas já de longe ouviu a risada. Abriu a porta e não pôde acreditar.

– Pode entrar, minha filha. Por favor, sirva um café à minha amiga prefeita…

FEDERAL

Foi acordada com um beijo. O marido, banho tomado e barba feita, assoviava com uma alegria de fazer inveja aos pássaros. Ela quis voltar a dormir, mas era inútil: mais radiante que o sol, ele já tinha aberto as cortinas.

– Bom dia, querido. Diz logo: quem foi preso pela Federal?

O RESTAURANTE

– Eu vou a um restaurante todos os dias. Lá, a conta, caríssima, é antecipada: entrou, pagou. A comida demora muito. Comida? Eu devia ter dito ração: além de péssima, não raro é pouca para tantos clientes. Por isso, quem tem opção nem espera. Entra, paga a conta e vai comer em outro lugar. É o que faço. Almoço numa lanchonete que não é lá essas coisas, mas é onde dá: a maior parte do meu dinheiro fica no restaurante.

– Mas professor, que história maluca é essa? O lugar é caro, a comida horrível e o senhor paga todos os dias pra não comer? Será que eu estaria errado se o chamasse de otário?

Ouviu-se uma risada convulsiva: nada dá mais prazer à juventude do que a tensão entre gerações. Agora a classe ansiava pela réplica. O mestre tinha em si toda a atenção.

– Você estaria certíssimo: eu sou um otário. Porque o restaurante é o Brasil. A conta, salgada e inexorável, são os impostos, esse fardo que nos pesa aos ombros. A comida ruim são os serviços públicos: saúde porca, educação mentirosa, estrutura de terceira. A lanchonete é essa onde vocês estão agora: a melhor escola que o dinheiro dos seus pais pode pagar. Sim jovem, eu sou um otário. Mas não estou sozinho.

EX-MINISTRO

– Soltaram o Guido Mantega? Ufa, que bom…

Estranho… Quantas vezes ouviu o amigo falar mal do ex-ministro? Mentecapto, ignóbil, toupeira, era daí pra baixo. Agora comemorava a soltura? Não dava pra entender.

– Explico: a gente só dá valor ao que perde. Acontece com namorada, com emprego, por que não com ministro? Na época do Mantega era muito fácil ganhar dinheiro. Ele dizia sobe, eu descia. Dizia investe, eu poupava. Dizia mexa-se, eu fingia de morto. E quando falou pra não apostar no dólar então? A grana mais fácil da minha vida! À sua maneira, foi o meu melhor conselheiro. Hoje em dia complicou: pra ganhar, só trabalhando mesmo.

NOVA IORQUE

Eram pernambucanos e passaram a lua de mel em Nova Iorque: presente do pai da noiva. Um mês inteiro. Adoraram entrar nos bares, namorar as vitrines, caminhar à noite pela Quinta Avenida. Na volta ao Recife estranharam tudo: o calor, os fios pendurados, o cheiro dos rios. Sobretudo o medo. Olhar para os lados, entrar no carro e dar a partida enquanto é tempo: o sobressalto de cada dia os incomodava como nunca. Não ousaram dizer a ninguém, mas por algum tempo a sua bela cidade lhes pareceu uma estranha.

 Um ano depois uma viagem de trabalho os levou a São Paulo. Esperavam uma cidade cinza, mas ficaram num bairro arborizado e agradável. Adoraram entrar nos restaurantes, namorar as vitrines, caminhar à noite pela Avenida Paulista.

– Você não acha que isso aqui tem um quê de Nova Iorque?

A esposa riu. “Você exagerou no vinho, meu bem”. Ele insistiu.

– Não sei o que é, talvez o frio, as roupas… São onze da noite e olha quanta gente! Parece até aquela rua, qual o nome? Vou procurar na internet.

Caminhava distraído, celular em riste: passou um garoto de bicicleta e pronto, adeus aparelho. Correu, gritou, tudo em vão. Depois ficou ali, ofegante, olhos vidrados no ciclista que já ia longe. Nem medo, nem raiva: sentia culpa. Já perto do hotel viu um policial.

– O senhor pode prestar queixa, mas o celular… Vacilou já era, infelizmente. Tem que se ligar, isso aqui é Brasil.

REFORMAS

– Souberam das reformas no Senado?

Seguiu-se ferrenha discussão. Um disse, “só querem tirar direitos!” O outro retruca, “sem as reformas, o país quebra!” Foram interrompidos:

– Não é reforma trabalhista, da previdência, nada disso. Falo de reformas nos gabinetes e apartamentos de diversas excelências, de vários partidos diferentes. Previsão de gastos: cerca de trinta milhões. Trinta milhões! O país ardendo e eles… Eu disse excelências? Corrijo: são majestades.

DOMINGOS

Aos domingos, sempre ia à prainha de Canindé do São Francisco com a família. Sol, crianças, o Velho Chico aplacando o calor do sertão… Mas ultimamente o passeio tinha virado um stress: o salva-vidas tinha sido dispensado e as boias que indicavam o lugar seguro para banho já não existiam. Ele, conhecedor dos perigos, via-se obrigado a orientar os banhistas. “Não vai pra lá, volta, aí é perigoso…” Chegou a comentar com a esposa:

– Um absurdo isso, vai acabar morrendo alguém. Mas quem se importa? Vai ser só um sertanejo, só um zé ninguém…

CALMANTE

Quietos! Ouviram a sirene? São eles, será? Passou. Fulana, faz um suco de maracujá! Um absurdo isso comigo, onde vai parar esse país? Já ligaram pros advogados? Os caras ganham milhões e não resolvem nada, milhões! Contrata outro. Não, não demite ninguém, só contrata outro, não é hora de economizar. E os informantes, deram notícia? Não é possível um silêncio desses. Quietos! Ouviram? Ufa, foi uma ambulância. Fulana, o meu suco! Alguém aí tem um calmante? Ninguém? Vocês não prestam pra nada, chama o segurança, manda ele ir à farmácia. Eu liguei pro Fulano, ele disse que não podia ajudar. Canalha, ingrato, sem mim ele não seria nada! Pior foi o Beltrano, nem atende o telefone, um safado que até outro dia me lambia as botas. O cerco fechou, acho que vou fugir, vocês acham que devo? Cala a boca, não quero opinião. Ah, mas isso não fica assim. Se não der jeito eu delato, aí meu amigo, não sobra um! Se eu cair essa cambada cai comigo! Fulana, que raio de suco é esse? Bota uma Vodka nesse troço! Acabou? Bota cachaça, uísque, batiza isso, suco puro eu não bebo. Quietos! Ouviram? Isso é uma sirene? Passou… Cadê o calmante?