CUNHA: QUANTO TEMPO?

Dois homens, oitenta anos de vida, um hábito: apostar sobre tudo. Placar de futebol, final de novela, resultado de eleição. Nos últimos tempos um deles desenvolveu uma mania: Eduardo Cunha.

– Esse golpista não sai da presidência da câmara, eu aposto!

Logo depois o Supremo suspendeu o mandato do Cunha que, pressionado, renunciou à presidência. O homem não se deu por vencido.

– O mandato ele não perde. Dobro a aposta: não vai ser cassado.

A cassação veio. Quando o vencedor foi cobrar o dinheiro, encontrou o outro transtornado, voz alterada, veias saltando do pescoço. Assustado, chegou a propor esquecerem a aposta. Mas o amigo estava com a macaca:

– Está comemorando o quê? Cassação sem prisão é golpe! Quero ver se você é homem: dobro de novo. Se ele for preso, pago quatro vezes o valor original!

O outro topou, menos pelo dinheiro, mais para não contrariar. No dia da prisão, nem sequer procurou o amigo: receava pela sua saúde. Já não tinham idade para emoções fortes. Mas logo o telefone tocou.

– Isso é golpe! Prender é uma coisa, mas manter preso… Vamos refazer a aposta: se ele ficar cinco anos preso, pago dez vezes o valor original. Dez vezes! E aí?

– Deixa eu ver se entendi… Eu tenho oitenta, você um pouco mais. Está me pedindo pra esperar cinco anos e só então receber o dinheiro? É muito tempo, sei lá se a gente… Você vai me desculpar, mas isso sim é golpe!

 

ANJO

– Eu pago o combustível! Eu posso pagar!

O pronto-socorro estava cheio e o tanque da ambulância vazio: não dava pra chegar a outro hospital. O motorista disse que não podia aceitar. “Fora do protocolo, totalmente irregular”. Argumentou que outra ambulância já tinha sido chamada, mas o homem não estava disposto a esperar: com um soco, pôs o outro a nocaute. Depois pegou a chave do carro e já ia levando a mulher dali quando foi imobilizado por dois seguranças. Pouco depois, ouviu-se uma sirene. “Finalmente”, pensou, “é a nova ambulância!” Errado, era a polícia. Do fundo da viatura ele viu a esposa desfalecida na maca. Aquele rosto tão conhecido agora parecia ainda mais lindo, calmo, um rosto de anjo. Nem que vivesse mil anos esqueceria aquela cena: a última vez que a viu com vida.

POLÍCIA DO SENADO

– Está o maior rebu: a Polícia Federal prendeu uns agentes da Polícia do Senado, acusados de atrapalhar as investigações da Lava Jato. Aí tem gente achando certo, tem gente achando exagero…

– Eu acho um absurdo.

– Pois eu acho certo. A Lava Jato é importante para o país e…

– Não, isso não. Eu acho um absurdo a mera existência de uma Polícia do Senado…

PRENDERAM O CUNHA

Perdeu o emprego e com ele o plano de saúde. Só aí veio a entender o que era o SUS: na primeira virose que o filho teve, chegou às sete no hospital e, às duas da tarde, nada de atendimento. Nem uma mísera luz no fim do túnel. Deitada em seu colo, ardendo em febre, a criança dormia. Gemidos, corredores apinhados, desesperança no ar. Cada uma daquelas pessoas pagava uma fortuna em impostos, no entanto… Se eu pudesse, pensou, não pagava nada. Nem um puto, nem um mísero tostão! Mas ele não podia. Tão certa quanto a morte era a mão pesada do governo sobre o bolso de cada brasileiro: uma mão gulosa e inevitável. O pensamento ia por aí quando o celular tocou.

– E aí amor, o médico disse o quê?

Era a esposa, aproveitando o horário de almoço do trabalho. Ele reportou a situação: criança dormindo, hospital cheio, nada de atendimento. Sentindo o desânimo do marido, ela quis ao menos dar uma boa notícia.

– Você soube? Prenderam o Cunha.

O Cunha? O intocável, todo poderoso, para alguns inimigo público número um? Ao desligar o telefone, o sentimento tinha mudado um pouco. Não, nem todo o dinheiro dos impostos ia pro lixo. Se eu pudesse, pensou, pagaria apenas a parte da Polícia Federal…

 

A BOLSA OU…

– O meu celular, o salário do mês, os meus documentos! Até a chave de casa, estava tudo naquela bolsa…

O ônibus inteiro tinha sido assaltado, mas ela era a única a choramingar os objetos perdidos. Chorava e praguejava: “ele não me deixou nada…” Foi interpelada por uma senhora.

– Ele deixou a sua vida. A arma estava na sua cabeça, minha filha. Na sua cabeça! Mês passado, aqui mesmo nessa linha, o assaltante não foi com a cara de um rapaz e… Você está viva, isso é muita sorte. Agradeça a Deus: mais um dia viva nesse nosso Brasil.

CORPO NA ESTRADA

Rodas no asfalto, sol em riste, a primeira aventura em casal. Vinham felizes, ouvindo música e rindo de tudo. Cenário de filme: céu azul, tempo bom, o verde emoldurando a tarde. Sob o frescor da juventude, tudo parecia sonho. Até que avistaram um corpo na estrada. A discussão começou.

– O que será que aconteceu? Querido, vamos parar.

– Nem pensar, isso é assalto.

– Mas você vai deixar essa pessoa aí no meio do nada?

– A gente liga pra polícia, chama uma ambulância, qualquer coisa, mas não vou parar.

– Celular aqui não funciona. Será mesmo assalto? Para o carro, por favor! Ao menos passa devagar pra gente ver o que está acontecendo…

– Ao contrário, vou acelerar.

Foi o que fez. A moça estava dividida. Aquilo era excesso de prudência ou pura falta de solidariedade? No fundo estava decepcionada: o seu coração terno colocava a humanidade acima de tudo. Mais à frente, o rapaz diminuiu. Estavam ambos vidrados no retrovisor quando três homens saíram da mata e se uniram ao outro, que levantou. Trêmulo, o casal seguiu o resto do caminho em silêncio. O céu, o verde e até a sua juventude, tudo esvaneceu um pouco naquela tarde. Viviam no Brasil, onde o sonho não é perdoado.

BOXE

– Hoje é ouro no boxe!

Com Robson Conceição na final olímpica, aquele baiano estava eufórico. Quando criança, tinha visto duelos épicos ao lado do pai no Ginásio Balbininho, em Salvador. Na sua mente infantil, flashes em câmera lenta: o soco final, o homem ao chão, a turba aos berros, mil bocas expelindo saliva, ódio e som. O tempo passou. Hoje, pai e ginásio são falecidos. Ficou o amor pelo esporte.

– Esse comedor de dendê não ganha. Duvido!

Morava em outro estado e a frase veio de um colega de trabalho. O sujeito não entendia nada de boxe. Adiantava falar de Reginaldo Holyfield, Acelino Popó, Adriana Araújo e tantos outros? Não foi preciso. O seu chefe intercedeu.

– Você está falando besteira. No boxe, Salvador é potência.

O sujeito baixou o tom, mas não se deu por vencido. “Potência? O senhor vai me desculpar, mas não acredito. Desde quando baiano bate em alguém?”

– Você já passou o carnaval por lá?

– Não…

– Tá explicado.

FERIADÃO

Três amigas, duas semanas, uma viagem de férias. No voo de volta, o avião fez escala em Brasília. Alguns passageiros entraram.

– Olha, não é aquela deputada?

– É ela sim. O outro também, tá vendo? E outro! Mas gente, eles não trabalham aqui? Hoje é quinta, essa semana tem feriadão?

– Ih menina, já vi que você não entende nada de Brasília. Pra essa gente, toda semana é feriadão…

 

ESCALAÇÃO

– Crise, inflação, empresas fechando… O número de assassinatos só não cresce mais do que o de desempregados. Sinto que a nossa casa, velha e carcomida, infestada de cupins e outros bichos, pode ruir a qualquer momento. Nem o futebol temos mais! O eterno país do futuro tem saudades do passado: hoje ninguém mais sabe a escalar a seleção brasileira. Como ter esperança?

– Mas você não vê? A esperança está justamente aí! Escuta: ninguém sabe escalar a seleção brasileira, mas muita gente escala o STF de cor e salteado. Sim, há esperança…

DIREITO

No dia da eleição acordou gripado: trinta e oito de febre. Pediu à esposa um antitérmico e um chá de limão. “Preciso melhorar, quero exercer o meu direito!” O mal-estar era tamanho que não conseguiu almoçar. A filha tentou dissuadi-lo. “Vai sair doente nessa chuva?” O homem tinha uma vontade de pedra: “nenhum resfriado vai me impedir de exercer o meu direito!” Nem bem tirou o carro da garagem, caiu num buraco e furou o pneu. Gripe, chuva, macaco e parafuso: um domingo e tanto. Já perto da sessão eleitoral enfrentou um trânsito pesado. Foi difícil achar uma vaga. Estacionou longe, olhando o relógio, prestes a perder o horário. Com febre, frio e mãos cheias de graxa, ele correu. Chegou a tempo de ver o porteiro passando um cadeado no portão.

– Deixa eu entrar, quero exercer o meu direito!

– Pra votar não dá mais tempo. Mas o senhor ainda tem o direito de pagar a multa…