PRENDERAM O CUNHA

Perdeu o emprego e com ele o plano de saúde. Só aí veio a entender o que era o SUS: na primeira virose que o filho teve, chegou às sete no hospital e, às duas da tarde, nada de atendimento. Nem uma mísera luz no fim do túnel. Deitada em seu colo, ardendo em febre, a criança dormia. Gemidos, corredores apinhados, desesperança no ar. Cada uma daquelas pessoas pagava uma fortuna em impostos, no entanto… Se eu pudesse, pensou, não pagava nada. Nem um puto, nem um mísero tostão! Mas ele não podia. Tão certa quanto a morte era a mão pesada do governo sobre o bolso de cada brasileiro: uma mão gulosa e inevitável. O pensamento ia por aí quando o celular tocou.

– E aí amor, o médico disse o quê?

Era a esposa, aproveitando o horário de almoço do trabalho. Ele reportou a situação: criança dormindo, hospital cheio, nada de atendimento. Sentindo o desânimo do marido, ela quis ao menos dar uma boa notícia.

– Você soube? Prenderam o Cunha.

O Cunha? O intocável, todo poderoso, para alguns inimigo público número um? Ao desligar o telefone, o sentimento tinha mudado um pouco. Não, nem todo o dinheiro dos impostos ia pro lixo. Se eu pudesse, pensou, pagaria apenas a parte da Polícia Federal…

 

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