BRASIL X BRASÍLIA

Louco por futebol, sentiu a tragédia como se fossem todos amigos próximos: não é coisa pouca que um time inteiro faleça de uma vez. Durante todo o dia consumiu e foi consumido por aquela notícia. À noite, com o coração pesado, custou a dormir. No dia seguinte foi acordado pela esposa com o jornal:

– Viu? Só uma notinha. O congresso deu um tapa na cara da Laja Jato e sai só uma notinha!

O marido ainda não estava desperto.

– Aconteceu o quê?

– Aconteceu isso: eles usaram a nossa dor. Enquanto o Brasil olhava pra Chapecó, Brasília só tinha olhos pra Curitiba.

HELICÓPTERO

-Você a viu notícia? O estado do Rio não pagava a manutenção daquele helicóptero que caiu há mais de um ano. Eu te disse, falei que era precipitado dizer que ele tinha sido derrubado por bandidos.

– Mais de um ano? Meu Deus… Bom, não muda nada. De um jeito ou de outro, ele foi derrubado por bandidos…

CONSERTANDO O BRASIL

Na pausa para o almoço, o pedreiro estava vendo o jornal. Um resumo do primeiro dia de cadeia do ex-governador do Rio: corte de cabelo, roupa nova, café, almoço e janta. No cardápio, feijão, macarrão, farinha e carne. O colega ao lado arriscou opinião:

– Finalmente estão consertando o Brasil, hein?

– Será? Eu trabalho desde os dezesseis e olha o meu almoço: arroz com ovo. Nunca ganhei nada de graça, nem um corte de cabelo. Enquanto isso um safado desses… Não, pra mim isso aqui está longe de consertar.

NOTÍCIAS

– Ontem já foi quente: primeiro manifestantes invadiram a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, depois Anthony Garotinho vai preso. À tarde, a mulher do Cunha diz ao juiz que não sabia de nada. Enquanto isso os deputados tentam transformar as dez medidas contra a corrupção em medidas a favor e o Congresso é invadido por manifestantes. Acordo hoje, Sérgio Cabral preso! É tanta notícia que eu não consigo trabalhar!

– Pois eu tenho uma notícia que pode te ajudar a trabalhar: são doze milhões de desempregados no Brasil e o número só aumenta.

– Calma patrão, já voltei ao batente…

MANDATO OU MANDADO

– A fonte é quente: a delação chegou ao seu nome. Eu fui até onde dava, a partir daqui não posso fazer mais nada. Dá um jeito, aciona os seus contatos, consegue um ministério ou algo parecido, senão…

Era o advogado. O sujeito estava apavorado, mas não tinha certeza se esse era o passo certo.

– E a opinião pública? Acho que ia pegar muito mal…

– Não tem outro jeito: é mandato de ministro ou mandado de prisão.

RESGATE

Na hora do assalto só pensou nas prestações: faltava um ano para a moto ser sua e já não era mais. O cara chegou a pé e sacou a arma, uma pistola novinha, coisa de filme. Não era a primeira vez, mas na porta de casa assusta. O sujeito partiu e ele ficou ali, trêmulo. Foi a esposa quem saiu e o trouxe para dentro sob o olhar dos vizinhos.

No dia seguinte o telefone tocou no segundo gole de café. Do outro lado da linha, um homem de gelo. Voz calma, falou que queria mil reais pelo resgate da moto. Ia dar um tempo pra ele levantar a grana. Disse isso e desligou. Quanta ousadia! Transtornado, praguejou com uma fúria que nem ele mesmo se sabia capaz. Maldisse a vida, a mãe do cara, o mundo inteiro. O peso da injustiça parecia insuportável: teve vontade de matar, teve vontade de morrer.

– Sabe quando vou aceitar um acordo desses? Nunca!

No dia seguinte, sem moto, foi ao trabalho de coletivo. Ali, em pé, passou a refletir. Pensou que trabalhador é trabalhador e bandido é bandido: não ia matar ninguém nem muito menos queria morrer. O outro sabia tudo, o seu nome, endereço e telefone. E ele, com quem estava lidando? Não fazia ideia. Traficante, milícia, facção, vai saber? Pensou na mulher, na sua casa, suas coisas. Por fim pensou na moto, ele precisava do veículo. Nada como o suplício físico para quebrar um homem: doíam-lhe as pernas e a alma. Após uma hora e meia em pé, finalmente desceu do ônibus. Derrotado, sentiu queimar nas têmporas a triste constatação: sim, ia pagar o resgate.

COISA BRASILEIRA

Há meses o cardápio era pão com ovo, ovo com arroz, omelete… A filha sentia saudade da carne de panela, da feijoada do fim de semana, mas não tinha jeito: sem a pensão do ex-marido, agora desempregado, esse tipo de luxo ficou impossível. E ainda assim a conta não fechava. Transporte, mercado, gás, tudo aumentou e o seu dinheiro curto já não valia nada. Para piorar, a mercearia da esquina deixou de fazer fiado: o risco de calote era geral. Com grande esforço, a mulher engoliu o orgulho e ligou para o pai.

– Você sabe, eu não gosto de pedir, mas a coisa está russa…

– Russa não, minha filha. Está brasileira…