RETROSPECTIVA

Era um grupo de amigas, senhoras vindas de tempos antigos, quando o sol caminhava bem mais lento. Desde sempre tinham um hábito: todo mês de dezembro faziam uma reunião, um misto de oração e retrospectiva, um expurgo de todo o mal que tinham vivido no ano. Falavam do passado e pediam a Deus pelos tempos vindouros. Mas dessa vez o encontro estava difícil: uma não podia, outra não queria, uma terceira nem atendia ao telefone. Até que uma delas resolveu ser honesta:

-Sabe o que é, Fulana? É que esse ano de 2016… Se a gente começar a falar dele, só vai terminar no fim de 2017. Vamos pular dessa vez?

O AEROPORTO

Aos seis meses de desemprego o marido já não era o mesmo: tornou-se calado, ríspido, um intragável. Os dias iam embora e com eles a esperança: indústrias fechando, comércio à míngua, cenário de terra arrasada. “Calma querido, a gente vai encontrar uma saída”. O salário dela não fechava as contas e a cada mês aumentava o número vermelho nas finanças da família. Até a filha, tão pequena, parecia perceber algo no ar: já não fazia tanto barulho, nem tanta bagunça. A tensão dos adultos contaminou-lhe a infância.

Até que, ao voltar do trabalho a esposa encontrou o marido eufórico. “Olha querida, que lindo!” Na tela do computador, paisagens de um país estrangeiro: castelos, montanhas geladas, pistas de esqui. Ele tinha conseguido uma colocação no exterior.

– Eu não sei esquiar, eu gosto de praia! Não quero sair daqui, a gente vai dar um jeito, esse país tem saída!

– Saúde, transporte bom, escola de primeira pra menina… Antes dos dez anos ela vai saber três línguas!

– Eu não quero…

– Andar na rua a qualquer hora do dia, sem ter medo da sombra… Nós vamos ser felizes!

– Ninguém é feliz abaixo de zero! A gente vai encontrar uma saída…

– Procuro uma saída há tempos. Agora encontrei: a saída é o aeroporto. Você acha que eu quero deixar pra trás os meus pais, os meus amigos? Eu não posso te obrigar a nada, mas não posso ficar. Não há nada pra mim aqui.

Aos prantos, ela saiu de casa. “Vou dar uma volta!” Passou a pé pelo colégio onde estudou, depois pela praça onde ela e o marido deram o primeiro beijo. Logo à frente ficava a praia. Lembranças lindas: viu-se menina, correndo por ali, ombros leves, pés mal tocando a areia… Mas o transe não durou: saídos de um arbusto, dois homens vieram em sua direção. “Quieta aí, dona!” Como louca, atirou-se ao trânsito, carros buzinando ao seu redor.

Atingiu o outro lado da rua com a respiração ofegante, procurando ter certeza de que os homens a tinham perdido de vista. Foi nesse instante que compreendeu: os tempos leves tinham ficado para trás. Assim como ela, o país também parecia ter perdido a inocência. “Se não há nada aqui para o meu marido, tampouco há para mim. Vamos embora juntos. E vamos ser felizes.”

 

 

CHAMA LADRÃO

Sempre aconteceu, mas ultimamente tornou-se mais frequente: toda madrugada era acordada por gritos. “Ladrão! Ladrão!” Antes ficava sobressaltada, espiava pela janela, sentia dó. Agora já nem levantava: o absurdo que acontece todos os dias, deixa de ser. Certa vez, morta de sono, foi acordada por uma vítima especialmente escandalosa. “Ladrão! Ladrão!” Foi à janela.

-O ladrão não vai voltar. Ou grita pela polícia ou cala a boca e me deixa dormir…

APELIDO

-A minha carreira política acabou. Maldito delator!

Desolado, andava para um lado e para o outro, copo de uísque na mão. A mulher tentava consolar:

-Mas querido, o seu nome sempre esteve envolvido num escândalo ou outro… E mesmo assim você sempre se elegeu. Daqui pra eleição o povo esquece!

-Do escândalo o povo esquece, mas do apelido… Impossível esquecer. Ninguém vai votar num candidato com esse maldito apelido!

A NOVELA

O noticiário preferido da filha era no mesmo horário da novela da mãe. A primeira era cruel: “esse casal não sabe se briga ou se faz as pazes. É um vai não vai, um ata e desata… Eu acho que estão te enrolando, mamãe!”

 A mãe fingia que não ouvia: era viciada naquele folhetim. Mas naquela noite a filha chegou do trabalho esbaforida. Com ímpeto, tomou para si o controle remoto. “Hoje tenho que ver o jornal. O Supremo Tribunal destituiu o presidente do Senado!”
A outra não entendeu muito bem, mas o caso parecia importante. Deixou que a filha se inteirasse das notícias. “Amanhã vejo a novela”, pensou. Estava enganada. Aconteceu tudo de novo: a entrada intempestiva, o confisco do controle, a solenidade da notícia. “O presidente do Senado negou-se a cumprir a decisão judicial! A coisa está quente, tudo vai ser decidido amanhã pelo Supremo. Estão dizendo que podem até prender o homem.”
No dia seguinte a mãe nem sequer ligou o aparelho. Outra vez a filha entra em casa em polvorosa:
– O Supremo decidiu manter o cara no cargo!
– Ué, ficou tudo por isso mesmo?
– Parece que sim…
– Esse pessoal não sabe se briga ou se faz as pazes. É um vai não vai, um ata e desata… Eu acho que estão te enrolando, minha filha.

FOGO

– Brasília está pegando fogo!

– Sério? Morreu alguém?

– Não, rapaz, não é um fogo literal. Seguinte: anteontem o congresso aprovou medidas contra a corrupção. Logo depois, na madrugada, houve uma reviravolta e elas viraram medidas a favor. Já no dia seguinte a matéria foi pro Senado. O presidente da casa tentou votar correndo, em tempo recorde: não conseguiu. Hoje ficamos sabendo o porquê da pressa: o Supremo decidiu que o homem é réu! Imagine, o presidente do…

– Peraí, devagar que eu tô perdido!

– Tá, eu explico. Que parte você não entendeu?

– O que é um fogo literal?