A NOVELA

O noticiário preferido da filha era no mesmo horário da novela da mãe. A primeira era cruel: “esse casal não sabe se briga ou se faz as pazes. É um vai não vai, um ata e desata… Eu acho que estão te enrolando, mamãe!”

 A mãe fingia que não ouvia: era viciada naquele folhetim. Mas naquela noite a filha chegou do trabalho esbaforida. Com ímpeto, tomou para si o controle remoto. “Hoje tenho que ver o jornal. O Supremo Tribunal destituiu o presidente do Senado!”
A outra não entendeu muito bem, mas o caso parecia importante. Deixou que a filha se inteirasse das notícias. “Amanhã vejo a novela”, pensou. Estava enganada. Aconteceu tudo de novo: a entrada intempestiva, o confisco do controle, a solenidade da notícia. “O presidente do Senado negou-se a cumprir a decisão judicial! A coisa está quente, tudo vai ser decidido amanhã pelo Supremo. Estão dizendo que podem até prender o homem.”
No dia seguinte a mãe nem sequer ligou o aparelho. Outra vez a filha entra em casa em polvorosa:
– O Supremo decidiu manter o cara no cargo!
– Ué, ficou tudo por isso mesmo?
– Parece que sim…
– Esse pessoal não sabe se briga ou se faz as pazes. É um vai não vai, um ata e desata… Eu acho que estão te enrolando, minha filha.

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