O AEROPORTO

Aos seis meses de desemprego o marido já não era o mesmo: tornou-se calado, ríspido, um intragável. Os dias iam embora e com eles a esperança: indústrias fechando, comércio à míngua, cenário de terra arrasada. “Calma querido, a gente vai encontrar uma saída”. O salário dela não fechava as contas e a cada mês aumentava o número vermelho nas finanças da família. Até a filha, tão pequena, parecia perceber algo no ar: já não fazia tanto barulho, nem tanta bagunça. A tensão dos adultos contaminou-lhe a infância.

Até que, ao voltar do trabalho a esposa encontrou o marido eufórico. “Olha querida, que lindo!” Na tela do computador, paisagens de um país estrangeiro: castelos, montanhas geladas, pistas de esqui. Ele tinha conseguido uma colocação no exterior.

– Eu não sei esquiar, eu gosto de praia! Não quero sair daqui, a gente vai dar um jeito, esse país tem saída!

– Saúde, transporte bom, escola de primeira pra menina… Antes dos dez anos ela vai saber três línguas!

– Eu não quero…

– Andar na rua a qualquer hora do dia, sem ter medo da sombra… Nós vamos ser felizes!

– Ninguém é feliz abaixo de zero! A gente vai encontrar uma saída…

– Procuro uma saída há tempos. Agora encontrei: a saída é o aeroporto. Você acha que eu quero deixar pra trás os meus pais, os meus amigos? Eu não posso te obrigar a nada, mas não posso ficar. Não há nada pra mim aqui.

Aos prantos, ela saiu de casa. “Vou dar uma volta!” Passou a pé pelo colégio onde estudou, depois pela praça onde ela e o marido deram o primeiro beijo. Logo à frente ficava a praia. Lembranças lindas: viu-se menina, correndo por ali, ombros leves, pés mal tocando a areia… Mas o transe não durou: saídos de um arbusto, dois homens vieram em sua direção. “Quieta aí, dona!” Como louca, atirou-se ao trânsito, carros buzinando ao seu redor.

Atingiu o outro lado da rua com a respiração ofegante, procurando ter certeza de que os homens a tinham perdido de vista. Foi nesse instante que compreendeu: os tempos leves tinham ficado para trás. Assim como ela, o país também parecia ter perdido a inocência. “Se não há nada aqui para o meu marido, tampouco há para mim. Vamos embora juntos. E vamos ser felizes.”

 

 

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