ACIDENTE OU ATENTADO?

Para ir até a casa da mãe ele tinha que pegar o ônibus de uma linha, digamos, sensível. Escolhia a roupa mais simples, calçava o sapato mais velho, levava um celular antigo, mantido justamente para essas ocasiões. Na carteira, pouco dinheiro e alguns papéis: documentos iam escondidos em outro bolso. Quando ocorria a abordagem, sabia o procedimento de cor. Cabeça baixa, sem nunca encarar ninguém, pertences na mão, facilitando o trabalho do ladrão. Muitas vezes foi assaltado naquele ônibus, mas desta vez correu tudo bem. Chegando ao destino, encontrou a mãe discutindo com uma vizinha.

– Foi atentado, certeza. O homem estava prestes a colocar Brasília inteira na berlinda e morre assim, sem mais nem menos?

-Acidentes acontecem, isso é teoria da conspiração.

-Teoria, né? Sei… E você meu filho, o que acha?

-Bom… Eu acho que todo brasileiro tem obrigação de saber se proteger dos bandidos. Quantas vezes a gente não deixa de sair à noite, de ir a algum lugar, porque é perigoso? Aí esse cara, na mira dos maiores criminosos do país, fica pra cima e pra baixo passeando de aviãozinho? Se foi atentado eu não sei, mas que foi um tremendo vacilo, isso foi…

COMPROMISSO

A mãe já estava no hospital há meses e o filho, político importante, ainda não tinha aparecido. O motivo era a sua nova residência: uma carceragem em Curitiba. Os parentes tiraram a TV do quarto, evitavam revistas e jornais. Temiam a condição cardíaca da senhora. Mas ela não era boba: no dia de Natal, família reunida, disparou uma saraivada de perguntas.

– Onde está o meu filho? Foi morte? Sequestro? Está doente? Respondam!
– Não tem nada disso…
– Então o que houve?
– Bom… Digamos que ele está preso a um compromisso.

REBELIÃO

O Brasil estava voltado para o mar em busca de bênçãos para o ano novo. Enquanto isso, às suas costas, no longínquo norte, a barbárie nacional cotidiana parecia ter se concentrado num único ponto. Cenas macabras vieram daquele presídio em Manaus: corpos esquartejados, cabeças decapitadas, tudo registrado e divulgado pelos próprios autores com o exibicionismo selvagem de quem faz do horror o seu poder. Longe dali, jantando as sobras da ceia, sogra e nora assistiam às notícias.

– Meu Deus, que rebelião terrível!

– Não houve rebelião nenhuma.

Era a velha contestando. Sem querer contrariar, a mulher ficou calada. Dessa vez foi a repórter na TV quem falou: “o número de mortos da rebelião…”

– Quanta bobagem, não houve rebelião.

A nora não estava entendendo. Estaria a idade afetando o discernimento da senhora? O âncora do jornal chamou o comercial: “logo mais, as últimas notícias sobre a rebelião que…”

– Já disse, não houve rebelião nenhuma!

– Mas a senhora não está vendo as notícias? Dezenas de mortes!

– Escuta minha filha: rebelião é quando alguém se rebela. Esses caras não são rebeldes, eles mandam na cadeia. Você não viu? Estavam lá com armas, bebidas, tinham até frigobar! Aí um dia resolveram acertar as diferenças com os rivais e… Eu chamaria isso de guerra, use o nome que quiser, mas uma coisa é certa: não houve rebelião.

É LEGAL?

– Esse governador… O estado quebrado, o país em crise, o filho vai pra farra e ele vai buscar de helicóptero! Você sabe quanto custa uma viagem dessas?

– Deixa de coisa, o homem já explicou tudo… A aeronave fica à disposição, ele pode usar, não tem nada ilegal.

– E daí que não é ilegal? Escravidão já foi legal. Mulher votar já foi ilegal. Enforcamento em praça pública já foi legal. Você quer justificar um absurdo dizendo que ele não é ilegal? Isso não é nada legal.