MARACANÃ

Era o assunto preferido do avô: tinha trabalhado na construção do Maracanã e visto a final da Copa de cinquenta. “Aquela derrota… Maior tristeza da minha vida.” Era um mecânico de automóveis com vocação para contar histórias: tinha visto a Marta Rocha na praia, ouvido Tom Jobim ao vivo, viajado num lotação ao lado do Drummond…”O Rio de Janeiro naquele tempo era… Era outro Brasil”.
Por anos trabalharam juntos, neto e avô, naquela oficina de beira de estrada. Até o dia em que, debaixo de um carro, o garoto ouviu a notícia: o Brasil foi escolhido como sede da Copa de 2014. Eufórico, esfregou as mãos cheias de graxa pelos cabelos. “Uma Copa no Brasil! Vovô, eu vou pro Rio, quero trabalhar nas obras do Maracanã e assistir à final!
O avô não gostou da ideia, mas não quis contestar. “Deixa, depois ele esquece”. Porém à medida em que o tempo passava a obstinação do neto só crescia. Fazia planos, passava horas olhando fotos no computador: Santa Teresa, Urca, Arpoador… O velho ensaiou uma reação.
– Rapaz, o Rio hoje em dia… Aquilo está um perigo. Vai mudar pra lá? Pobre em cidade grande sofre…
O neto disse que não, agora tinha UPP, as favelas estavam pacificadas, o Rio era outro. Não seria pobre pra sempre, o futuro era seu! A cabeça erguia castelos: a cidade da juventude do avô, cenário das novelas, com seus morros, praias e garotas de biquíni, logo estaria a seus pés. O avô deixava o assunto por alguns dias, mas logo voltava à carga.
– Construção Civil é um trabalho pesado… Você é ótimo mecânico, a oficina é humilde mas é negócio de família… Vale a pena deixar tudo isso?
O neto mal ouvia. Ficava olhando o velho, a tez enrugada, as mãos cheias de graxa, a cara de cansaço… Viu-se ali anos mais tarde, também velho, parado naquela estrada, estacionado eternamente num lugar onde todos só queriam passagem. Não, ele podia mais. Construção civil era só o começo, levantar o estádio era um rito de passagem. Ele queria erguer uma nova vida, ele podia mais! No dia em que fez as malas, ouviu do avô o último aviso:
– O Maracanã acabou de ser reformado, já vão quebrar tudo pra fazer de novo. Agora vamos ter até Olimpíadas, vejam só! Copa, Olimpíadas, derruba Maracanã, levanta Maracanã, derruba Maracanã de novo… Isso não tem como terminar bem: a grana um dia acaba e aí, já era emprego! Já nosso negócio aqui, carro quebrado não vai faltar nunca. Fica, meu filho…
Um pensamento tomou conta do garoto: o avô estava com inveja! Sim, inveja da sua juventude, essa dádiva que põe mais dias à sua frente do que atrás de você. Mais: certamente tinha também inveja do seu novo país, pujante, próspero, uma potência capaz de sediar os maiores eventos do mundo, muito melhor do que esse Brasil distante que o velho tanto amava. Acabar a grana? Que piada… O futuro era dele! Para ele e para o país, o céu era o limite.
– Desista, procura outro ajudante pra oficina, eu não quero isso pra mim. Não vou ficar atolado nessa estrada, coberto de graxa, ouvindo os seus casos do passado enquanto a história passa pela televisão. Depois que eu conseguir emprego e ajeitar a minha vida, volto pra visitar o senhor.
Emprego ele conseguiu, mas nunca ajeitou a vida. No primeiro mês numa favela entendeu que a pacificação era uma farsa: vivia com medo da milícia, da polícia e do tráfico. Construiu o Maracanã, mas nunca viu um jogo ali: os preços da Copa eram proibitivos e, fora dela, o estádio dificilmente abrigava partidas comuns. Anos passaram e ele nunca tinha voltado para visitar o avô, mas lembrou das suas palavras sempre: quando foi assaltado, quando foi confundido com um bandido, quando foi demitido. Pobre em cidade grande sofre… Agora a situação estava ainda pior: o presidente da empreiteira onde trabalhava estava preso, o governador que tinha contratado a empresa também. Certa noite passou pelo estádio que o avô tinha erguido e que ele tinha derrubado e erguido de novo. Estava todo às escuras. Foi o colega ao lado quem explicou:
– Soube não? Cortaram a luz por falta de pagamento. Está tudo abandonado, largado, saqueado…
Sentiu um peso no coração. Lembrou do passado, do avô, da despedida rude… Com o telefone da oficina na cabeça, parou em frente a um orelhão. Mas logo desistiu de ligar: com aquele nó na garganta, falar seria impossível.

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