CAOS

Saques, mortes, tiros pelas ruas. Moradora de Vitória, ela achou que com a greve de policiais no Espírito Santo perderia a sua viagem a Salvador. Como chegar ao aeroporto? A empresa de táxi não atendeu à ligação, o irmão não quis dar carona, ônibus nem pensar: vários tinham sido incendiados. Foi o pai quem a levou. No caminho, um tiroteio. Gritos, gente correndo, carros invadindo a contramão. Logo à frente jazia um cadáver. O velho manobrou, subiu a calçada, cantou pneu e logo estavam longe dali. Deixou-a no aeroporto com os conselhos de sempre: comporte-se, cuidado, juízo. “É a primeira vez que dou graças a Deus por você estar viajando.” Na aeronave, foi com alívio que viu a sua amada cidade ficar cada vez mais longe, cada vez menor, até virar um ponto no horizonte, até virar um nada.

Em Salvador era esperada por uma amiga. “Já comprei o seu ingresso: hoje vamos a uma festa ótima!” Ficou muito impressionada com a cidade. Na saída do aeroporto, um lindo túnel de bambus. Na orla, o céu limpo, o mar azul e a música que vinha do rádio a deixaram tão feliz que quase esqueceu o caos capixaba em que tinha deixado a sua família. “Isso aqui tem uma luz diferente, uma coisa boa, não sei nem explicar!” A amiga tinha acabado de propor um pôr do sol no Porto da Barra quando o locutor interrompeu a música. Notícia terrível: bandidos haviam chacinado três seguranças de um show que ia acontecer naquela noite.
– Mas é a festa que nós vamos!
Não iam mais. Diante da tragédia, com mortos e corpos queimados em plena luz do dia, o show foi cancelado. Daí em diante não falaram mais em festa, nem pôr do sol, nem luz diferente. O silêncio imperou naquele carro. Sentindo um amargo na língua, a turista entendeu que o caos capixaba era apenas uma versão concentrada de um fenômeno muito maior, banal e corriqueiro. O verdadeiro caos é brasileiro.

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