QUE ABSURDO É ESSE?

O local não parecia perigoso: verão, cidade turística, uma praça em frente à prefeitura. Ela passeava tranquila, curtindo a tarde, saboreando um picolé. Chamou-lhe atenção um rapaz: moreno, bonito, vinha em sua direção com andar resoluto. Achou que queria puxar assunto, tentar algum tipo de paquera. Quanto engano. Num gesto automático, ele puxou do seu pescoço a corrente que tanto gostava, presente da falecida avó. Fez isso e saiu no mesmo passo, rápido, reto, mas sem correria. O susto inicial deu lugar ao grito: “ladrão!” Olhou em volta procurando um policial, um herói, qualquer alma nobre que trouxesse de volta a sua correntinha. Mas a praça olhou de volta com desassombro e lentidão. Sentiu vergonha das lágrimas que molhavam o seu rosto. Não tinha perdido nada de valor, mas o sentimento… “Que absurdo é esse? Em plena luz do dia, em frente à prefeitura, que absurdo é esse?” A resposta veio de um gari que trabalhava ao lado.

– Mas dona, a senhora não viu o que aconteceu no começo do ano no Amazonas, em Roraima, no Rio Grande do Norte?

Sem entender, ela nada respondeu. Ficou ali, cara lavada, picolé derretendo, tentando decifrar o enigma. Foi ele quem quebrou o silêncio.
– O país não consegue controlar os bandidos que estão dentro da cadeia, imagine os que estão fora. É isso mesmo, é o Brasil…

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