À FLOR DA PELE

– O meu patrão é um saco! Cara fechada, nada está bom, parece um cachorro farejando um erro da gente…

A viagem era longa e a mulher falava alto. Todo o ônibus ia se inteirando dos defeitos do seu chefe: nunca dava um sorriso, chegava antes para controlar os atrasos, procurava deslizes com uma lupa. Até que, vinda dos fundos do coletivo, surgiu uma mulher com fogo nos olhos.

– Você trabalha onde? Quem é o seu patrão? Fala, eu quero saber!

Todos os passageiros estavam vidrados na cena. A tensão estava no ar: nítida, espessa, quase sólida.
– Como assim, minha senhora?
– Eu estou desempregada há quase um ano. Quase um ano batendo perna atrás de um trabalho e só vejo porta fechada, gente na rua, empresa falindo! O que eu mais queria era um patrão no meu pé e você abre esse bocão pra reclamar? Quem é esse homem? Eu vou até ele, vou dizer que você não merece o emprego que tem e vou tomar o seu lugar!
Por pouco a coisa não virou física: separando as duas, o cobrador evitou o pior. A desempregada saltou logo depois. Passada a refrega, um senhor de idade que vinha perto da catraca fez o comentário:
– Que sufoco, hein meu amigo?
– Pois é, isso aqui está cada dia pior. O brasileiro anda à flor da pele…

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