QUASE TODO MUNDO

Ela entrou na loja sem jeito, olhando pros lados, não sabia o que fazer com os braços. O comerciante reconheceu na hora: era a dona da escola onde a sua filha estudava. Sorriso amarelo, não olhou as prateleiras nem perguntou por nenhum produto. Foi direto ao assunto:
– E aí, como vai a nossa menina? Podemos contar com ela para esse ano?
O homem gaguejou. Disse que a situação estava difícil, vendas pela metade, um monte de lojas fechando…”Ao menos por enquanto, ela vai estudar na pública”.
A mulher fez uma cara doída. Tentou argumentar, mas nem precisava: a má fama da escola pública do bairro falava por si. O homem encolheu os ombros. “Sem dinheiro, fazer o quê?” Cabeça baixa, ela saiu dali como quem sai de um velório. “Está ruim pra todo mundo”, pensou ele.
Estava ruim também para a sua filha. Não que ela pensasse na qualidade do ensino ou algo assim: a sua preocupação infantil estava resumida às amizades que deixaria na antiga escola. No primeiro dia de aula, passos inseguros a levaram até o portão enferrujado. Por toda a tarde o pai mal pôde se concentrar no trabalho: o pensamento estava fixo naquela escola, na tristeza da filha, no futuro que talvez não fosse. Será que um dia ele conseguiria voltar a pagar um bom ensino? Fechou a loja mais cedo e foi esperar em frente, coração pesado, esfregando as mãos. Mas quando a menina saiu, quanta surpresa: pulava, gritava, ostentava no rosto um sorriso radiante.
– O que houve? Fez novos amigos?
– Não, eram os mesmos do ano passado! A Fulana, o Sicrano, a Beltrana… Estava quase todo mundo lá.

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