LAMA

Via a profissão do pai com poesia: cruzar horizontes, um após o outro, puxando atrás de si a riqueza do país… O velho fazia que não ouvia. Até que, num intervalo entre uma viagem e outra, veio a frase resoluta:
– Pai, vou seguir os seus passos. Quero ser caminhoneiro!
Pensou em argumentar, mostrar que aquela era uma vida difícil… Mas decidiu agir diferente.
– Durma cedo. Amanhã você pega estrada comigo.
Dormir? Foi impossível: o garoto estava tão ansioso que não pregou o olho. No dia seguinte amanheceram antes do sol, tendo como destino as plantações de soja do Pará. Centenas de quilômetros de estradas péssimas. Buracos no asfalto eram o de menos: por ali era sorte achar algum asfalto. Em certo trecho o atoleiro era tão grande que tiveram que parar. Dezenas, centenas de caminhões esperando um trator que os rebocasse até um ponto menos ruim. “Isso vai demorar alguns dias…” O pai parecia conhecer a todos. Estava jogando dominó com amigos quando foi interrogado pelo filho:
– Mas pai, eu estava contando os caminhões, tem muita soja atolada nessa estrada. Muita! É muito dinheiro parado na lama… Será que os políticos não estão vendo isso?
A resposta veio com um sorriso:
– Como veriam? Esse pessoal só anda de jatinho…

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