A PONTE E O TEMPO

No meio do caminho tinha uma ponte: vigas expostas, estrutura carcomida, uma temeridade. Um  dia veio uma chuva mais forte, o rio encheu e… Ele trabalhava na cidade vizinha. A partir daí as suas viagens diárias tiveram que sofrer um grande desvio: ao invés de meia hora, levava uma hora e meia em cada trecho. O governador deu a palavra de que em dois anos uma nova ponte estaria no local. Ele fez as contas: “duas horas a mais por dia, cinco vezes por semana. Eu trabalho umas cinquenta semanas por ano. Em dois anos, são mil horas.”
Mil horas! Pensou no que podia fazer em mil horas: brincar com o filho, estudar uma língua, ler livros… Ou dormir! Qualquer opção seria melhor do que desperdiçar ao volante o recurso mais valioso: seu tempo. “Só espero que cumpram o prazo, que a coisa aconteça rápido!”
De início parecia estar acontecendo. Homens, máquinas, muito material. Aos poucos o desenho da ponte ia ressurgindo na paisagem. Ele estava feliz: o prazo parecia plausível. Quanto engano. Alguns meses depois a empreiteira alegou despesas inesperadas e exigiu novos repasses. Foi aí que a coisa empacou: o governador culpava a empresa, que atirava contra o governo. A obra nunca mais teve o mesmo ritmo. O tempo foi passando: um ano de atraso, dois, quatro. Certa feita, seis anos após iniciados os trabalhos, ele passou em frente ao local. Não havia um operário sequer, apenas tapumes e uma placa de propaganda. Refez as contas: àquela altura, a obra já lhe tinha roubado três mil horas. Juntas, elas somavam cento e vinte e cinco dias. São quatro meses a menos de família, de lazer, de sono… Quatro meses a menos de vida. Foi nesse dia, enquanto estava ao volante contando o tempo perdido, que o rádio o interrompeu com uma notícia: o dono da empreiteira tinha sido preso.
O susto foi tamanho que ele teve que parar no acostamento. Ficou ali, estacionado, olhos vidrados, ouvidos atentos. O figurão caiu atirando: acusou o governador e aliados de tramarem o atraso na obra para favorecer o desvio de verbas. O governador, claro, negou tudo. Porém, à medida em que dava declarações sobre o caso, ficava evidente um tom permissivo, quase cúmplice. Chamou atenção um trecho:
– As pessoas tem que entender que as empresas envolvidas em corrupção também contribuem para a riqueza nacional. E a obra da ponte, com essa investigação, como é que fica? Vai atrasar…
Nesse momento ouviu batidas no vidro do carro. Alguém vinha oferecer auxílio.
– O que houve? O carro quebrou?
Atento ao rádio, nem respondeu: pediu silêncio com o dedo em riste. O outro não se deu por vencido:
– Não é seguro ficar parado aqui. O que você está fazendo?
A pergunta o fez despertar. Com um olhar vazio, respirou fundo e desligou o aparelho.
– Perdendo tempo, meu amigo. Estou só perdendo tempo…

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