TESOURA

Trabalhava de dia e estudava à noite, voltava tão moída que cochilava no ônibus. Naquele dia acordou com o grito: ele roubou o seu cabelo! O sujeito já estava apontando a tesoura para o motorista, que abriu a porta. Ela passou a mão na nuca, nos ombros, ainda confusa pelo despertar abrupto. Até que viu o homem, já do lado de fora, caminhando calmamente com o seu cabelo nas mãos. Só então o coração disparou: o meu cabelo! Claro que já tinha sido assaltada antes, mas aquilo era demais. Chorava copiosamente. Aquele homem tinha espoliado o seu corpo e a sua maior vaidade. Sentia-se nua. Desceu do ônibus com a cabeça baixa, trêmula, com medo da sombra. Ainda não podia acreditar: o cabelo! Na porta de casa, topou com uma vizinha.

– Mudou o visual?

A resposta foi um sorriso amarelo. Sentia vergonha, como toda mulher violentada.

PESCOÇO

O gerente demitiu aquele sujeito com um mal disfarçado sorriso no rosto. Era desleixado, debochado, encostado e quase sempre atrasado: o tipo de funcionário que sobrecarrega os colegas e desestabiliza a equipe. Tinha medo do efeito cascata: se esse aí faz o que faz e não é punido, como mostrar aos outros que valia a pena ser correto? Há muito vinha falando ao patrão, senhor, esse cidadão… Mas não foi capaz de convencer. A crise foi. De início a situação parecia passageira: as coisas vão melhorar, somos sólidos, prestamos bons serviços… Pura ilusão. Quando enfim a hecatombe mostrou o seu tamanho, o patrão não teve saída. Cabeças tinham que rolar. A primeira, claro, foi a do desleixado.

Meses passaram e não houve um deles em que o gerente não tivesse que repetir o ritual. Chamava alguém à sua sala para o aviso. Alguns, presos ao passado, ficavam até felizes. Pensavam nas férias remuneradas, sem perceber que estavam sendo jogados na vala comum de uma terra arrasada. Mas a maioria sabia: não é que estava difícil conseguir emprego. Não havia emprego. O prazer que tomava conta do gerente nas primeiras demissões logo esvaneceu. Agora não havia mais desleixados. Estava pondo na rua gente boa, comprometida, trabalhadora. Pior: era ele o carrasco obrigado a escolher. Quem vai perder o ganha-pão hoje? O garoto recém-casado? A senhora que em poucos anos ia se aposentar? O pai de três filhos pequenos? Pela manhã, enfrentando o trânsito em direção ao trabalho, levava na carona a tragédia daquelas famílias. Sobretudo uma cena o abalou: um senhor, homem sério, anos de casa, desabou na sua frente. Chorou como uma criança por quase meia hora, jogado na cadeira, a camisa banhada pelo pranto. Não parecia capaz de reagir. O gerente quis consolar, mas sentia uma culpa, um peso que calava a sua garganta. Tentou chorar junto, mas não pôde. Por fim levantou o homem pelo braço, levou-o à porta sem dizer palavra. Depois foi ao banheiro e lavou o rosto. Deixou-se estar por ali, mãos ao pescoço, como quem tenta se proteger de uma lâmina invisível. O pensamento era fixo: mais cedo ou mais tarde, seria a sua vez.

SETE A UM

Arredores do Mineirão, oito de julho de dois mil e quatorze. Ele não tinha grana, mas era uma semifinal de Copa do Mundo: pegou um empréstimo e comprou o ingresso nas mãos de um cambista. Setecentos reais para um assento. Ouviu bronca do pai e da mãe, mas estava lá para ver Brasil e Alemanha. Chegou cedo com a intenção de beber umas cervejas do lado de fora do estádio: disseram que lá dentro era caríssimo. Foi ali, ao lado do isopor, que conheceu a alemã. A empatia foi imediata: aqueles olhos azuis estavam fixos na boca farta, no sorriso branco, na pele negra do brasileiro. Falava um português razoável, ele quis saber onde tinha aprendido. Na internet, ela disse. Tinha pai russo, mãe alemã e avó ucraniana. Estas três línguas aprendeu em casa. Na escola aprendeu inglês e francês. Fez intercâmbio em Madri, onde aprendeu o espanhol. Já o português estudou só para vir ao Brasil: ouviu dizer que teria dificuldades sem falar a língua nativa. Russo, alemão, ucraniano, inglês… Ele só falava português. Fez as contas: sete a um.

Na hora do jogo, a despedida foi inevitável: os ingressos levavam a setores diferentes. A garota enlaçou o seu pescoço. Foi o beijo mais quente, mais doce, mais terno da sua vida. Marcaram encontro naquele mesmo lugar, logo depois da partida. Àquela altura ele já nem queria entrar, mas o ingresso estava comprado, fazer o quê? Nunca tinha ido a um estádio com lugar marcado. Perguntou, procurou, reclamou. Sentia-se um estranho na sua própria casa, e pior: estava perdido. Enfim encontrou o seu lugar, ao lado de uma família: pai, filho e avô. Fez amizade. Os dois primeiros gritavam, cantavam, sopravam apitos. Mas o avô estava tenso: “Kross, Schweinsteiger, Klose, Lahm, Khedira, Özil, Neuer, sete craques. Sem o Neymar a gente tem quem? Oscar?”

Depois do quarto gol, quando filho e neto decidiram ir embora, o avô disse ao novo amigo: “a bebida é por minha conta.” Comprou sete cervejas e uma água. Bebia e reclamava: “cerveja nacional é horrorosa. Eu morei na Alemanha, aquilo que é cerveja. Você viu a confusão pra chegar aqui? Acesso horrível, lá fora é outra coisa. Estive num jogo em Salvador, aeroporto horroroso, que trânsito! Isso aqui nunca prestou, mas pelo menos no futebol a gente era maioral. Agora nem isso”

O clima era amargo. No quinto gol os jogadores alemães nem comemoravam mais. Gente chorando, gente indo embora. O velho estava com a macaca. Embotado pelo álcool, gritava: “a gente merece! Fizemos a copa mais corrupta da história! A mais corrupta da história!”

Será que, talvez, num ato de misericórdia, o juiz não podia acabar logo a partida? Não, não podia, respondia a si mesmo. A catarse, o espetáculo de expiação nacional tinha que continuar. Depois do sexto gol deixou o velho sozinho com o pretexto de ir ao banheiro: não dava mais pra ouvir tudo aquilo. O resto da partida esteve em pé, algumas filas atrás, lembrando do esforço que fez para estar ali. Pensou na dívida com o banco: ele ia passar meses pagando essa loucura, enquanto a alemãzinha ia voltar lá para o seu mundo, onde a cerveja é boa, o trânsito flui e os aeroportos funcionam. Absorto, mal percebeu o sétimo tento alemão e o gol brasileiro. Mesmo à distância voltou a prestar atenção no discurso do velho que, logo abaixo, berrava:

– Ninguém chame a isso de gol de honra! Não temos honra! Nós construímos estádios milionários em cidades que não têm time de futebol! Fizemos a copa mais corrupta da história! A mais corrupta da história!

Já estava incomodando as pessoas. Uns xingavam, outros pediam silêncio. Um grupo de garotos, cabeça quente pelo resultado, resolveu fazer mais que isso. De longe, fez a conta: eram sete contra o velho. Entrou na briga e apanharam os dois. Depois, todo doído, ajudou o amigo a levantar: “vamos embora daqui”

Foram conversando, caminhando devagar. Falou da alemã, do beijo, do encontro marcado. Agora, depois dessa partida… Já nem sabia mais. “Estou com vergonha”. O outro foi taxativo:

– Meu filho, não seja bobo. Pior que perder é não entrar em campo. Hoje a noite é sua!

– Mas olha pra mim, todo machucado…

– Machucados estamos todos, mas você é o único com essa chance de ouro nas mãos. Não entende? É a sua noite de glória. Devolva esse placar pra gente! Vá, encontre a menina e devolva o placar! Mostre do que um brasileiro é capaz. Dê sete a um! A forra de um país inteiro está nas suas mãos, meu filho: dê sete a um!

É ficção, mas nem parece.