COMPROMISSO

A mãe já estava no hospital há meses e o filho, político importante, ainda não tinha aparecido. O motivo era a sua nova residência: uma carceragem em Curitiba. Os parentes tiraram a TV do quarto, evitavam revistas e jornais. Temiam a condição cardíaca da senhora. Mas ela não era boba: no dia de Natal, família reunida, disparou uma saraivada de perguntas.

– Onde está o meu filho? Foi morte? Sequestro? Está doente? Respondam!
– Não tem nada disso…
– Então o que houve?
– Bom… Digamos que ele está preso a um compromisso.

REBELIÃO

O Brasil estava voltado para o mar em busca de bênçãos para o ano novo. Enquanto isso, às suas costas, no longínquo norte, a barbárie nacional cotidiana parecia ter se concentrado num único ponto. Cenas macabras vieram daquele presídio em Manaus: corpos esquartejados, cabeças decapitadas, tudo registrado e divulgado pelos próprios autores com o exibicionismo selvagem de quem faz do horror o seu poder. Longe dali, jantando as sobras da ceia, sogra e nora assistiam às notícias.

– Meu Deus, que rebelião terrível!

– Não houve rebelião nenhuma.

Era a velha contestando. Sem querer contrariar, a mulher ficou calada. Dessa vez foi a repórter na TV quem falou: “o número de mortos da rebelião…”

– Quanta bobagem, não houve rebelião.

A nora não estava entendendo. Estaria a idade afetando o discernimento da senhora? O âncora do jornal chamou o comercial: “logo mais, as últimas notícias sobre a rebelião que…”

– Já disse, não houve rebelião nenhuma!

– Mas a senhora não está vendo as notícias? Dezenas de mortes!

– Escuta minha filha: rebelião é quando alguém se rebela. Esses caras não são rebeldes, eles mandam na cadeia. Você não viu? Estavam lá com armas, bebidas, tinham até frigobar! Aí um dia resolveram acertar as diferenças com os rivais e… Eu chamaria isso de guerra, use o nome que quiser, mas uma coisa é certa: não houve rebelião.

É LEGAL?

– Esse governador… O estado quebrado, o país em crise, o filho vai pra farra e ele vai buscar de helicóptero! Você sabe quanto custa uma viagem dessas?

– Deixa de coisa, o homem já explicou tudo… A aeronave fica à disposição, ele pode usar, não tem nada ilegal.

– E daí que não é ilegal? Escravidão já foi legal. Mulher votar já foi ilegal. Enforcamento em praça pública já foi legal. Você quer justificar um absurdo dizendo que ele não é ilegal? Isso não é nada legal.

RETROSPECTIVA

Era um grupo de amigas, senhoras vindas de tempos antigos, quando o sol caminhava bem mais lento. Desde sempre tinham um hábito: todo mês de dezembro faziam uma reunião, um misto de oração e retrospectiva, um expurgo de todo o mal que tinham vivido no ano. Falavam do passado e pediam a Deus pelos tempos vindouros. Mas dessa vez o encontro estava difícil: uma não podia, outra não queria, uma terceira nem atendia ao telefone. Até que uma delas resolveu ser honesta:

-Sabe o que é, Fulana? É que esse ano de 2016… Se a gente começar a falar dele, só vai terminar no fim de 2017. Vamos pular dessa vez?

O AEROPORTO

Aos seis meses de desemprego o marido já não era o mesmo: tornou-se calado, ríspido, um intragável. Os dias iam embora e com eles a esperança: indústrias fechando, comércio à míngua, cenário de terra arrasada. “Calma querido, a gente vai encontrar uma saída”. O salário dela não fechava as contas e a cada mês aumentava o número vermelho nas finanças da família. Até a filha, tão pequena, parecia perceber algo no ar: já não fazia tanto barulho, nem tanta bagunça. A tensão dos adultos contaminou-lhe a infância.

Até que, ao voltar do trabalho a esposa encontrou o marido eufórico. “Olha querida, que lindo!” Na tela do computador, paisagens de um país estrangeiro: castelos, montanhas geladas, pistas de esqui. Ele tinha conseguido uma colocação no exterior.

– Eu não sei esquiar, eu gosto de praia! Não quero sair daqui, a gente vai dar um jeito, esse país tem saída!

– Saúde, transporte bom, escola de primeira pra menina… Antes dos dez anos ela vai saber três línguas!

– Eu não quero…

– Andar na rua a qualquer hora do dia, sem ter medo da sombra… Nós vamos ser felizes!

– Ninguém é feliz abaixo de zero! A gente vai encontrar uma saída…

– Procuro uma saída há tempos. Agora encontrei: a saída é o aeroporto. Você acha que eu quero deixar pra trás os meus pais, os meus amigos? Eu não posso te obrigar a nada, mas não posso ficar. Não há nada pra mim aqui.

Aos prantos, ela saiu de casa. “Vou dar uma volta!” Passou a pé pelo colégio onde estudou, depois pela praça onde ela e o marido deram o primeiro beijo. Logo à frente ficava a praia. Lembranças lindas: viu-se menina, correndo por ali, ombros leves, pés mal tocando a areia… Mas o transe não durou: saídos de um arbusto, dois homens vieram em sua direção. “Quieta aí, dona!” Como louca, atirou-se ao trânsito, carros buzinando ao seu redor.

Atingiu o outro lado da rua com a respiração ofegante, procurando ter certeza de que os homens a tinham perdido de vista. Foi nesse instante que compreendeu: os tempos leves tinham ficado para trás. Assim como ela, o país também parecia ter perdido a inocência. “Se não há nada aqui para o meu marido, tampouco há para mim. Vamos embora juntos. E vamos ser felizes.”

 

 

CHAMA LADRÃO

Sempre aconteceu, mas ultimamente tornou-se mais frequente: toda madrugada era acordada por gritos. “Ladrão! Ladrão!” Antes ficava sobressaltada, espiava pela janela, sentia dó. Agora já nem levantava: o absurdo que acontece todos os dias, deixa de ser. Certa vez, morta de sono, foi acordada por uma vítima especialmente escandalosa. “Ladrão! Ladrão!” Foi à janela.

-O ladrão não vai voltar. Ou grita pela polícia ou cala a boca e me deixa dormir…

APELIDO

-A minha carreira política acabou. Maldito delator!

Desolado, andava para um lado e para o outro, copo de uísque na mão. A mulher tentava consolar:

-Mas querido, o seu nome sempre esteve envolvido num escândalo ou outro… E mesmo assim você sempre se elegeu. Daqui pra eleição o povo esquece!

-Do escândalo o povo esquece, mas do apelido… Impossível esquecer. Ninguém vai votar num candidato com esse maldito apelido!

A NOVELA

O noticiário preferido da filha era no mesmo horário da novela da mãe. A primeira era cruel: “esse casal não sabe se briga ou se faz as pazes. É um vai não vai, um ata e desata… Eu acho que estão te enrolando, mamãe!”

 A mãe fingia que não ouvia: era viciada naquele folhetim. Mas naquela noite a filha chegou do trabalho esbaforida. Com ímpeto, tomou para si o controle remoto. “Hoje tenho que ver o jornal. O Supremo Tribunal destituiu o presidente do Senado!”
A outra não entendeu muito bem, mas o caso parecia importante. Deixou que a filha se inteirasse das notícias. “Amanhã vejo a novela”, pensou. Estava enganada. Aconteceu tudo de novo: a entrada intempestiva, o confisco do controle, a solenidade da notícia. “O presidente do Senado negou-se a cumprir a decisão judicial! A coisa está quente, tudo vai ser decidido amanhã pelo Supremo. Estão dizendo que podem até prender o homem.”
No dia seguinte a mãe nem sequer ligou o aparelho. Outra vez a filha entra em casa em polvorosa:
– O Supremo decidiu manter o cara no cargo!
– Ué, ficou tudo por isso mesmo?
– Parece que sim…
– Esse pessoal não sabe se briga ou se faz as pazes. É um vai não vai, um ata e desata… Eu acho que estão te enrolando, minha filha.

FOGO

– Brasília está pegando fogo!

– Sério? Morreu alguém?

– Não, rapaz, não é um fogo literal. Seguinte: anteontem o congresso aprovou medidas contra a corrupção. Logo depois, na madrugada, houve uma reviravolta e elas viraram medidas a favor. Já no dia seguinte a matéria foi pro Senado. O presidente da casa tentou votar correndo, em tempo recorde: não conseguiu. Hoje ficamos sabendo o porquê da pressa: o Supremo decidiu que o homem é réu! Imagine, o presidente do…

– Peraí, devagar que eu tô perdido!

– Tá, eu explico. Que parte você não entendeu?

– O que é um fogo literal?

BRASIL X BRASÍLIA

Louco por futebol, sentiu a tragédia como se fossem todos amigos próximos: não é coisa pouca que um time inteiro faleça de uma vez. Durante todo o dia consumiu e foi consumido por aquela notícia. À noite, com o coração pesado, custou a dormir. No dia seguinte foi acordado pela esposa com o jornal:

– Viu? Só uma notinha. O congresso deu um tapa na cara da Laja Jato e sai só uma notinha!

O marido ainda não estava desperto.

– Aconteceu o quê?

– Aconteceu isso: eles usaram a nossa dor. Enquanto o Brasil olhava pra Chapecó, Brasília só tinha olhos pra Curitiba.

É ficção, mas nem parece.